A Amazônia liberou, em média, 1 bilhão de toneladas de dióxido de carbono a mais do que absorveu a cada ano entre 2010 e 2024, aponta estudo publicado em 21 de outubro de 2026 na revista Nature. As queimadas foram a principal fonte, com cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, muito acima da capacidade de absorção da mata, de 300 milhões de toneladas anuais. O trabalho foi liderado por cientistas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e recebeu financiamento da Fapesp e de outras instituições.
Com base na análise de 15 anos de medições atmosféricas de carbono, o estudo identificou as atividades humanas como responsáveis pelo desequilíbrio. Segundo a pesquisa, uma redução drástica das queimadas, aliada ao desmatamento zero e à restauração florestal, é essencial para evitar um ponto de não retorno da floresta. O alerta ocorre em um momento em que os focos de incêndio na Amazônia somam mais de 41.300 registros em menos de dez meses, sendo 58% concentrados em setembro e outubro, contra 43.130 em todo o ano de 2025, de acordo com dados do Inpe. A fumaça densa cobriu municípios do Amazonas, especialmente Manaus, levando à suspensão de aulas e à sobrecarga do sistema de saúde por problemas respiratórios.
A cientista do clima Luciana Vanni Gatti, coordenadora do LaGEE (Laboratório de Gases de Efeito Estufa) do Inpe e principal autora do artigo, afirma que o problema da Amazônia é a ação humana. "Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição. Precisamos de políticas públicas que valorizem a floresta em pé", diz. A pesquisa também aponta que, ao analisar dados dos últimos 46 anos, o desmatamento e a degradação reduziram a precipitação anual em 8% e, no pico da estação seca, entre agosto e outubro, em 20%. No mesmo período, a temperatura média anual subiu 1,13 °C, e na estação seca a elevação foi de 1,81 °C.
Os cientistas compararam períodos com diferentes condições climáticas e de intervenção humana, agrupando os anos em três cenários. O primeiro reuniu anos chuvosos (2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018), com baixa intensidade de atividades antrópicas. O segundo abrangeu anos de baixo estresse climático (2019 a 2022), com altos índices de desmatamento, aumento de 97%, e de queimadas, crescimento de 25%. O terceiro incluiu anos quentes e secos (2010, 2015, 2016, 2023 e 2024), com impactos de fenômenos como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte, associados a um aumento de 92% nas queimadas. Nos dois últimos grupos, a Amazônia passou de estocadora para fonte de CO₂, com balanço médio de cerca de 1,58 bilhão de toneladas por ano no segundo e de 1,8 bilhão no terceiro.
Segundo Gatti, as alterações comprometem a manutenção da floresta úmida e contribuem para um ciclo de retroalimentação, em que a perda de vegetação reduz as chuvas e eleva as temperaturas, favorecendo novas queimadas. A pesquisadora do Inpe Camilla Lima Cunha, uma das autoras, destaca a importância do financiamento contínuo para pesquisas de longo prazo. "Investimento contínuo em ciência é fundamental para compreender as transformações em curso na Amazônia e identificar os fatores que comprometem sua capacidade de absorver carbono", afirma. O grupo trabalha desde 2022 com análise de dados de sulfeto de carbonila (COS), traçador atmosférico da fotossíntese, para avançar na compreensão do balanço de carbono.