O agronegócio brasileiro enfrenta um momento delicado, com um número crescente de produtores rurais recorrendo à recuperação judicial, mesmo com o setor ostentando exportações bilionárias. Essa realidade se reflete nos balanços financeiros de instituições como o Banco do Brasil, que possui 808 clientes do agronegócio em recuperação judicial, totalizando uma dívida de R$5,4 bilhões.
A presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, revelou durante teleconferência com analistas que a inadimplência no setor tem impactado os resultados da instituição. Dos 600 mil clientes do agronegócio do banco, 20 mil estão inadimplentes, sendo que 74% deles nunca haviam apresentado atrasos nos pagamentos até dezembro de 2023.
O aumento nos pedidos de recuperação judicial no agronegócio tem chamado a atenção. No primeiro trimestre deste ano, foram registradas 389 solicitações, evidenciando uma tendência de dificuldades financeiras no setor. Em todo o país, o número de pedidos de recuperação judicial atingiu um recorde em 2024, com 2.273 solicitações, um aumento de 61,8% em relação ao ano anterior.
O balanço do Banco do Brasil reflete essa preocupação, com a expressão “risco de crédito” aparecendo 109 vezes no segundo trimestre de 2025, um aumento significativo em comparação com as 50 menções no balanço de 2024. Essa elevação indica que o tema tem sido amplamente discutido nas reuniões da diretoria.
Um aspecto notável é que muitos dos clientes em recuperação judicial são do segmento de private banking, produtores rurais que se endividaram para investir na produção em 2021 e 2022. Embora a lei permita que pessoas físicas com perfil semelhante a empresas utilizem a recuperação judicial para renegociar dívidas, o banco percebe que consultorias estão orientando produtores a entrarem com pedidos de recuperação judicial antes mesmo de negociarem com a instituição.
Apesar do cenário desafiador, a presidente do Banco do Brasil reforça o compromisso da instituição com o agronegócio, destacando sua liderança no setor. A preocupação reside no fato de que, ao menos no Banco do Brasil, as ações de recuperação judicial estarem concentradas no segmento de private banking, com produtores rurais que se alavancaram. A questão é se esse quadro se repete em outros bancos, e quais os reais impactos para um setor que, tradicionalmente, só apresenta o sucesso das colheitas.