A distribuição desigual de infraestrutura e investimentos públicos intensifica os efeitos de eventos climáticos extremos sobre a população de baixa renda. Moradores de áreas com habitações precárias e serviços insuficientes ficam mais expostos a enchentes e temporais e enfrentam maiores dificuldades para se recuperar. A avaliação é do professor Jeferson Tavares, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em entrevista publicada em 3 de novembro de 2026.
Segundo o pesquisador, a ausência de políticas habitacionais e de geração de renda leva famílias de baixa renda a ocupar áreas ambientalmente vulneráveis. Em Ribeirão Preto (SP), as diferenças entre as zonas Norte e Sul exemplificam essa desigualdade. A concentração de infraestrutura e investimentos nas regiões mais valorizadas faz com que a população da zona Norte, de menor renda, seja mais prejudicada pelos eventos extremos.
“Todos estão expostos aos riscos mas, onde você tem maior concentração de riqueza, os riscos têm menor incidência, e onde você tem menor concentração de riqueza, os riscos têm maior incidência”, afirmou Tavares.
O professor também relaciona o agravamento dos impactos climáticos ao modelo de urbanização das cidades brasileiras, marcado pela dependência de automóveis, impermeabilização do solo e ocupação de áreas ambientalmente frágeis. Segundo ele, a reconstrução de estruturas danificadas sem MUDANÇAS nesses padrões mantém as cidades vulneráveis a novos desastres.
Como alternativa, Tavares defende investimentos em infraestrutura verde e azul, soluções baseadas na natureza e políticas de adaptação climática. O pesquisador destaca ainda a necessidade de integrar mobilidade, saúde, educação e gestão de resíduos aos planos municipais de prevenção de riscos, considerando as características de cada território e com participação dos moradores das regiões afetadas. “É fundamental que todos esses planos tenham um período de escuta e discussão das soluções com a população afetada”, declarou.