A desinformação sobre saúde segue circulando no Brasil depois do fim da pandemia de Covid-19. Um relatório do Observatório Lupa analisou 764 alegações sobre o tema entre março de 2017 e junho de 2026 e concluiu que 87,3% delas eram falsas. O estudo, chamado Raio-X da Desinformação em Saúde, foi feito com apoio da Afya.
O levantamento dividiu as checagens em quatro períodos. De 2017 a 2019, eram comuns publicações que atribuíam a alimentos, bebidas e plantas a capacidade de prevenir ou curar doenças graves. Entre 2020 e 2021, durante a crise sanitária, a Lupa checou 452 conteúdos virais sobre saúde, cerca de dez vezes mais do que nos três anos anteriores. Já de 2022 a 2024, cresceram as publicações sobre supostos efeitos prejudiciais das vacinas, incluindo a alegação de que seria preciso fazer uma desintoxicação. De 2025 a junho de 2026, ganharam espaço promessas de tratamentos milagrosos ligadas à venda de suplementos, anúncios pagos e vídeos manipulados por inteligência artificial.
A presença de desinformação sobre vacinas variou ao longo do período. Antes da pandemia, o tema aparecia em 9,1% das checagens de saúde, passou a 33,2% durante a crise sanitária e chegou a 38,9% entre 2022 e 2024. No período mais recente, caiu para 20%, ainda mais que o dobro do patamar anterior à pandemia. Das 244 alegações sobre vacinas analisadas, 212 foram classificadas como falsas, o equivalente a 86,9%.
Segundo Maiquel Rosauro, pesquisador da Lupa responsável pelo levantamento, a pandemia ampliou a escala da desinformação, mas não criou todas as estratégias usadas atualmente. O relatório identificou dez táticas para tornar os conteúdos enganosos mais convincentes, entre elas a falsa autoridade médica ou científica, presente em 21,59% dos casos, o medo e a linguagem alarmista, com 17,09%, a distorção de estudos e dados, com 15,74%, e a apresentação de soluções simples para problemas complexos, com 12,59%. Um exemplo citado é um vídeo manipulado com a imagem do médico Drauzio Varella para promover um suplemento que supostamente reverteria problemas de visão. O vídeo original havia sido publicado em uma coluna do médico no UOL, em janeiro de 2021, e tratava de sintomas do diabetes. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que a publicidade de suplementos alimentares não pode atribuir aos produtos propriedades de tratamento, prevenção ou cura de doenças.
O levantamento também identificou cinco casos comerciais que sugeriam substituir tratamentos ou procedimentos comprovados, como abandonar medicamentos, dispensar insulina ou evitar cirurgias. Para reconhecer conteúdos enganosos, o relatório recomenda verificar a origem das informações, desconfiar de promessas de resultados extraordinários e checar se declarações atribuídas a médicos foram publicadas em canais oficiais. Erros de grafia, links suspeitos e páginas que imitam portais jornalísticos podem ser sinais de alerta. O estudo defende monitoramento contínuo, respostas nos mesmos canais em que os boatos circulam e ações de educação midiática, além de denunciar o uso indevido da imagem e da voz de profissionais.