O especialista Felipe Sampaio avalia que a tentativa de enquadrar facções e milícias como organizações terroristas atende a interesses do Tio Sam e de sócios brasileiros. Para ele, a medida enfraquece o combate ao crime organizado ao desviar o foco da estrutura sofisticada dessas quadrilhas. Sampaio critica a resistência da oposição em aprovar a PEC que institucionaliza o SUSP, encaminhada pelo atual governo ao Parlamento há meses.
Segundo Sampaio, terrorismo se caracteriza por células independentes que atuam à luz do dia com atentados a bomba, assassinatos de autoridades e enfrentamentos militares abertos. O objetivo seria tomar o governo por vias não democráticas e desestabilizar as instituições, podendo ser de esquerda, de direita ou de cunho religioso. Já o crime organizado, afirma, são quadrilhas com administração piramidal típica de máfias, voltadas a ganhar dinheiro fora da lei por meio de tráfico de drogas, contrabando, armas, corrupção e infiltração em atividades legais.
O especialista sustenta que tipificar juridicamente o crime organizado como terrorismo é má-fé, pois desarruma a estrutura de investigação criminal especializada. Ele cita o sistema de "follow the Money" baseado no Ministério Público, Polícia Federal, COAF, GAECOs, Judiciário, IBAMA e Receita Federal, capaz de levar à prisão figuras como Marcola, Vorcaro, juízes, governadores e congressistas. Em seu lugar, argumenta, surge um modelo antiterrorista de enfrentamento militar, com operações violentas em favelas e uso das Forças Armadas, que atinge jovens pobres e pretos.
Sampaio afirma que esse modelo serve para fortalecer o "braço forte" sobre a população comum e passar a "mão amiga" na cabeça de quem comanda o crime no andar superior dos negócios e da política. Como exemplo, menciona os 120 jovens pobres e pretos mortos pelo paredão do BOPE, sem que isso melhore o domínio do crime no local, enquanto figurões escapam da Ilha da Vera Cruz em jatinhos de amigos. Ele conclui que crime organizado é máfia e que narcoterrorismo é balela.