Indiciado pela Polícia Federal por suspeita de crimes financeiros no Banco Master, Augusto Ferreira Lima, dono do Banco Pleno e ex-sócio de Daniel Vorcaro, declarou em depoimento no último dia 16 que o ex-banqueiro tinha conhecimento detalhado das operações de empréstimos consignados da instituição. A afirmação foi feita no âmbito da Operação Compliance Zero e diverge da versão apresentada por Vorcaro.
Segundo Lima, Vorcaro não apenas conhecia o produto como centralizava todas as decisões operacionais, financeiras e estratégicas do banco. O depoimento contrasta com o de Vorcaro, prestado em dezembro do ano passado, no qual o ex-banqueiro disse que "não entrava nos detalhes" das operações de crédito consignado e conhecia apenas o funcionamento geral do negócio. Procurada nesta sexta-feira (30), a defesa de Daniel Vorcaro não respondeu sobre a declaração de Lima. A defesa de Augusto Lima afirmou que não comentaria.
Lima relatou que, em dezembro de 2024, quando uma equipe interna apontou que determinados contratos não deveriam ser processados, Vorcaro deu contraordem expressa para que a operação fosse efetuada. O ex-sócio afirmou ainda que, diante de questionamentos de auditores do BRB (Banco de Brasília) e do Banco Central sobre o lastro das operações, foi o próprio Vorcaro quem orientou executivos e subordinados a dar respostas evasivas ou falsas. Segundo o relato, o controlador determinava que os funcionários declarassem que os correspondentes bancários eram as associações de servidores públicos da Bahia (Asteba e Ceba) ou que os ativos haviam sido sacados de fundos de investimento.
De acordo com Lima, o nome das associações e a estrutura do Credcesta, cartão criado por ele para oferecer crédito consignado a funcionários públicos, teriam sido usados para dar aparência de legitimidade a carteiras de crédito sem lastro real e inflar os valores negociados com o BRB. Ele disse que a operação inicial com o BRB, de R$ 750 milhões, realizada em julho de 2024, tinha como base créditos regulares de funcionários públicos com histórico de alta adimplência. Afirmou também que a base do Credcesta jamais teria capacidade física ou geográfica de gerar o montante de R$ 5 bilhões a R$ 12 bilhões exigido por auditores e pelo Banco Central.
Lima contou que decidiu se desligar do Banco Master entre o final de 2022 e o início de 2023, oficializando a saída do quadro diretivo em 28 de maio de 2024, antes da operação inicial com o BRB, por divergir das estratégias adotadas por Vorcaro. Segundo ele, a saída da gestão do Credcesta foi mantida em sigilo a pedido do banco e do regulador para evitar pânico no mercado, o que o levou a atuar temporariamente como prestador de serviços de originação até estruturar a transferência da operação para o Banco Voiter. A Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito sobre o caso e indiciou, no último dia 28, Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas, entre elas PAULO Henrique Costa (ex-presidente do BRB) e o próprio Augusto Lima, por suspeitas de crimes financeiros na venda de carteiras de crédito ao BRB. Lima foi indiciado por suspeita de gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro. A defesa do empresário rechaça as conclusões do relatório e afirma que ele não participou, direta ou indiretamente, das fraudes investigadas.