O Outubro Rosa é um convite para refletirmos sobre a saúde feminina e, mais amplamente, sobre as estratégias eficazes de prevenção do câncer. Entre as neoplasias malignas que acometem as mulheres, o câncer de colo do útero é uma das poucas doenças que podem ser praticamente erradicadas por meio de ações simples e acessíveis: vacinação e rastreamento regular. Uma peça-chave nesse desafio é o papilomavírus humano (HPV), um agente diretamente relacionado não apenas ao câncer cervical, mas também a outras neoplasias em diversas regiões do corpo — incluindo vagina, vulva, ânus, pênis e orofaringe¹ ².
O HPV está incrivelmente presente na nossa sociedade. Estima-se que cerca de 80 milhões de americanos estejam infectados, com mais de 40 mil casos anuais de câncer diretamente associados a essa infecção¹. A maioria das infecções pelo HPV é transitória, sendo eliminada pelo sistema imunológico em um período de até dois anos¹ ³. No entanto, em uma parcela dos indivíduos, o vírus persiste no organismo, levando a um risco significativo de transformação maligna. Esse processo ocorre, em grande parte, devido à ação das oncoproteínas E6 e E7, que interferem nos mecanismos de proteção celulares, promovendo uma instabilidade genômica que favorece o surgimento de neoplasias⁵.
O impacto do HPV na saúde pública é expressivo. O vírus é responsável por aproximadamente 5% de todos os cânceres humanos e carrega um papel desproporcional no desenvolvimento de vários tipos de câncer⁴. Confira na tabela a seguir:
| Sítio anatômico | % de casos atribuídos ao HPV |
| Colo do útero | 99% |
| Ânus | 88% |
| Vagina | 70% |
| Pênis | 50% |
| Vulva | 43% |
| Orofaringe | 26% |
Os números evidenciam a amplitude do impacto do HPV — e reforçam a urgência de fortalecer as políticas públicas de vacinação e rastreamento. Estudos mostram que a vacinação é altamente eficaz quando administrada antes da exposição ao vírus, idealmente em meninas e meninos a partir dos nove anos de idade¹. Programas de imunização sistemática em diversos países já demonstraram reduções de até 90% nas lesões pré-cancerosas causadas pelos tipos oncogênicos 16 e 18, e ganhos consistentes na redução da incidência de câncer cervical⁶ ⁷ ¹. No entanto, o Brasil ainda enfrenta desafios importantes relacionados à taxa de cobertura vacinal. Mitos, preconceitos e desinformação têm limitado o alcance da vacina, especialmente em regiões desfavorecidas, como o Norte e o Nordeste.
Além da vacinação, o rastreamento regular com citologia e teste molecular de HPV continua sendo essencial. Esses exames permitem identificar precocemente lesões que podem evoluir para câncer, garantindo tratamentos mais eficazes e menos invasivos² ³. A combinação entre imunização em larga escala e programas de rastreamento eficazes pode transformar a realidade da saúde pública, permitindo avanços significativos na redução da mortalidade pelo câncer de colo do útero.
A vacinação também pode beneficiar outras faixas etárias, desde que orientada por um médico, considerando o histórico individual e o risco de exposição. Ensaios clínicos em andamento ainda investigam o papel da vacinação em populações vulneráveis, como mulheres previamente tratadas com LEEP (procedimento cirúrgico para lesões cervicais graves). Esses estudos são fundamentais para ampliar o entendimento sobre a eficácia do uso da vacina nessas circunstâncias específicas³. A vacina contra o HPV, sempre que possível o uso preferencial da HPV 9v, está indicada para meninas e meninos de 9 a < 20 anos em 2 doses com intervalo de 6 meses, e maiores de 20 anos em 3 doses (0-2 e 6meses).
O Outubro Rosa nos ensina que prevenir é salvar vidas. A vacinação contra o HPV é uma ferramenta poderosa, capaz de evitar o sofrimento causado por tratamentos invasivos, ciclos intensos de quimioterapia e radioterapia, e pela progressão de doenças que, há anos, poderiam ser controladas. É dever de todos nós — médicos, pais, educadores, governantes e sociedade civil — garantir que a vacina, integrada aos programas de saúde pública, alcance sua máxima eficácia. Ela protege contra o câncer cervical e outros tipos de câncer, promovendo saúde e esperança para meninas e meninos, mulheres e homens, de hoje e do futuro.
Referências
¹ Markowitz LE, Unger ER. Human Papillomavirus Vaccination. The New England Journal of Medicine. 2023;388(19):1790–1798. doi:10.1056/NEJMcp2108502.
² Baba SK, Alblooshi SSE, Yaqoob R, et al. Human Papilloma Virus (HPV) Mediated Cancers: An Insightful Update. Journal of Translational Medicine. 2025;23(1):483. doi:10.1186/s12967-025-06470-x.
³ Crosbie EJ, Einstein MH, Franceschi S, Kitchener HC. Human Papillomavirus and Cervical Cancer. The Lancet. 2013;382(9895):889–899. doi:10.1016/S0140-6736(13)60022-7.
⁴ McBride AA. Human Malignancies Associated With Persistent HPV Infection. The Oncologist. 2024;29(6):457–464. doi:10.1093/oncolo/oyae071.
⁵ Haręża DA, Wilczyński JR, Paradowska E. Oncogenic Properties of Viral Proteins. International Journal of Molecular Sciences. 2022;23(3):1818. doi:10.3390/ijms23031818.
⁶ Drolet M, Bénard É, Pérez N, et al. Population-level impact and herd effects following the introduction of human papillomavirus vaccination programmes: updated systematic review and meta-analysis. The Lancet. 2019;394(10197):497–509. doi:10.1016/S0140-6736(19)30298-3.
⁷ Lei J, Ploner A, Elfström KM, et al. HPV Vaccination and the Risk of Invasive Cervical Cancer. The New England Journal of Medicine. 2020;383(14):1340–1348. doi:10.1056/NEJMoa1917338.
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