Uma revisão sistemática que reuniu 29 estudos publicados entre 2000 e 2025 concluiu que 24% dos adultos com diabetes apresentam perda auditiva de pelo menos 40 decibéis, patamar em que a dificuldade para acompanhar uma conversa pode se tornar significativa. A análise também apontou que pessoas com a doença têm probabilidade duas vezes maior de desenvolver perda auditiva moderada a grave, em comparação com quem não tem diabetes.
Em 23 dos trabalhos analisados, a proporção de participantes com diabetes que tinham perda auditiva de pelo menos 40 decibéis foi de 24%. Uma outra análise mostrou que a doença esteve associada a uma chance 2,41 vezes maior de perda auditiva moderada a grave. Segundo o endocrinologista Simão Augusto Lottenberg, do Einstein Hospital Israelita, o diferencial do levantamento é separar os graus de comprometimento auditivo. “A maioria das revisões anteriores misturava todos os graus de perda auditiva, incluindo déficits leves ou subclínicos”, afirmou.
A hipótese levantada para explicar a relação entre diabetes e perda auditiva é que a glicose elevada de forma persistente danifica pequenos vasos sanguíneos e estruturas nervosas da cóclea, região do ouvido interno responsável pela audição. “É essencialmente o mesmo processo que causa complicações como retinopatia, neuropatia e nefropatia diabéticas, só que atingindo a cóclea”, declarou Lottenberg. Ele também destacou que a perda auditiva progride de forma silenciosa e ainda não está integrada de maneira sistemática aos protocolos de cuidado do diabetes.
Entre adultos com menos de 60 anos, o diabetes esteve associado a um risco 3 vezes maior de perda auditiva moderada a grave. Já entre os participantes com mais de 60 anos, a associação não foi estatisticamente significativa. O médico explica que, a partir dos 60 anos, a perda auditiva decorrente do envelhecimento é mais comum e pode dificultar a identificação do efeito causado pela doença. “Como em pessoas mais jovens o declínio auditivo natural relacionado à idade é mínimo, a associação robusta nesse grupo sugere que o diabetes pode atuar como um fator de risco mais proeminente nessa faixa etária”, disse.
O tempo de convivência com a doença também foi avaliado. Pessoas que tinham diabetes havia menos de 10 anos apresentaram probabilidade 2,68 vezes maior de perda auditiva moderada a grave do que aquelas sem a doença. Um único estudo com pacientes que conviviam com o diabetes havia mais de 10 anos encontrou associação ainda maior, mas os pesquisadores ressaltam que os dados são insuficientes para afirmar que o risco aumenta com o tempo. Os autores defendem que a avaliação auditiva seja incorporada ao acompanhamento de rotina das pessoas com diabetes, especialmente entre os adultos mais jovens.