A relação entre Estados Unidos e Brasil enfrenta um momento de tensão, com duas interpretações sobre as origens da crise. Uma vertente aponta a família Bolsonaro como responsável, argumentando que a atuação de Eduardo Bolsonaro em solo americano, com diálogo constante com diversos atores, fomentou a instabilidade, independentemente das ações do presidente Lula. A outra narrativa sugere que a postura de Lula, combinada com sua ênfase nos BRICS, contribuiu para a eclosão da crise.
A continuidade da influência de Eduardo Bolsonaro no governo americano é incerta. Há uma expectativa de que a família Bolsonaro mantenha a pressão sobre o governo Trump para intensificar as sanções contra o Brasil, especialmente considerando a possível prisão de Jair Bolsonaro até outubro, o que poderia radicalizar ainda mais a estratégia de Eduardo.
Em contrapartida, o governo Lula tem adotado uma postura de defesa da soberania, buscando a diplomacia e oferecendo benefícios tributários e financeiros aos setores econômicos afetados pelas medidas de Trump. A sugestão de um contato direto entre Lula e Trump é vista com cautela, dado o risco de uma potencial agressão verbal ou declaração que atinja as instituições brasileiras. Um diálogo respeitoso, com condições previamente negociadas, seria considerado mais adequado.
Apesar dos esforços da família Bolsonaro nos Estados Unidos, observa-se que o Supremo Tribunal Federal (STF) e os presidentes da Câmara e do Senado não se intimidaram com as ações do governo Trump. Decisões como o uso de tornozeleira eletrônica e a definição da data de julgamento de Jair Bolsonaro, além da não pauta da anistia no Congresso, indicam que a estratégia da família Bolsonaro não tem se mostrado eficaz.
Por outro lado, o governo Lula tem obtido alguns benefícios. A narrativa de defesa da soberania e o lançamento do Plano Brasil Soberano, que visa proteger setores da economia impactados pelas medidas de Trump, têm desviado a atenção de dificuldades internas, como inflação, gasto público e insegurança pública. Além disso, governadores pré-candidatos à presidência são levados a defender, ainda que indiretamente, Trump e a família Bolsonaro.
Diante deste cenário, questiona-se qual o ganho da família Bolsonaro ao incentivar Donald Trump a agir contra o Brasil, considerando que a possibilidade de Lula chegar enfraquecido às eleições de 2026, a chance de Jair Bolsonaro disputar a próxima eleição presidencial e a votação da anistia no Congresso parecem cada vez mais distantes.
Quanto ao futuro da crise, dois cenários são considerados plausíveis: um em que Lula e Trump dialogam e alcançam consensos comerciais mínimos, atenuando a pressão sobre as instituições brasileiras; e outro em que as pressões comerciais e políticas do governo americano persistem, levando o Brasil a buscar novos parceiros comerciais e evitar o confronto. Um cenário mais remoto, envolvendo uma intervenção militar americana no Brasil, embora improvável, não é totalmente descartado, dada a preocupação do governo Lula com o envio de militares dos EUA à América Latina, mesmo que o objetivo declarado seja o combate ao narcotráfico.