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Mary del Priore e a Luta Contra o Obscurantismo na História

A historiadora Mary del Priore enfrenta ataques e ameaças por seu trabalho sobre a mestiçagem no Brasil, enquanto defende a liberdade de pesquisa e...

A historiadora Mary del Priore tem sido alvo de ataques por parte de grupos que se opõem à divulgação de uma visão mais ampla e complexa da mestiçagem no Brasil. Essa milícia do obscurantismo tenta silenciar o debate em torno de realidades que não se encaixam em suas narrativas ideológicas. Recentemente, Del Priore lançou, em parceria com o historiador Gian Melo, a coletânea "Histórias das Mestiçagens no Brasil", publicada pela Editora Unesp, que busca desmistificar a ideia de que a mestiçagem é resultado apenas de abusos e violências.

Os ensaios presentes na coletânea abordam a mestiçagem como um fenômeno social complexo, que envolve arranjos familiares e concubinatos que se formaram desde o século XVI. Essa nova abordagem é uma resposta direta a uma visão reducionista que tem circulado em diversos círculos acadêmicos e culturais. No entanto, a repercussão de seu trabalho não foi positiva para todos, e Del Priore passou a receber xingamentos e ameaças de violência física, a ponto de precisar de escolta durante uma sessão de autógrafos na Bienal do Livro de São Paulo.

A situação de Del Priore ilustra um cenário mais amplo de degradação intelectual, no qual a tentativa de silenciar vozes críticas e obscurantistas se torna cada vez mais evidente. A historiadora fez uma denúncia pública sobre essa situação, destacando a importância da liberdade de expressão e do diálogo no campo da história. "A inteligência é sempre tranquila, jamais vocifera", afirmou, enfatizando que a pesquisa histórica deve ser protegida contra a brutalidade do silenciamento ideológico.

Durante uma reunião da Academia Paulista de Letras, ao anunciar o lançamento de seu livro, um dos confrades parabenizou Del Priore por sua coragem. A historiadora refletiu sobre essa afirmação, questionando o que, de fato, significa ter coragem para escrever sobre um tema tão relevante e evidenciado na formação social brasileira. A mestiçagem é um processo histórico que resulta de uma série de encontros e conflitos que moldaram a sociedade desde seus primórdios.

Em seu discurso, Del Priore ressaltou que o estudo da história não deve ser encarado como uma celebração ou uma condenação, mas sim como uma busca pela compreensão dos processos que nos tornaram uma sociedade mestiça. Ela alertou que a história, se mal ensinada ou manipulada, pode se transformar em uma arma nas mãos de ideólogos. Por outro lado, a prática de uma história bem fundamentada pode ajudar a cultivar a dúvida, a convivência com a complexidade e a valorização do diálogo em detrimento da imposição da força.

A coragem, , está em defender o direito de pesquisar livremente e de expressar opiniões sem medo de represálias. Quando historiadores e estudantes precisam de proteção para compartilhar suas ideias, isso revela uma ameaça não apenas a indivíduos, mas à própria essência da História, que começa a sofrer com o cerceamento da liberdade de expressão.

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