O voto de opinião, que já foi decisivo em eleições proporcionais no Grande Recife, praticamente desapareceu do cenário político pernambucano. A avaliação é de interlocutores ouvidos em análise sobre o pleito, que apontam o avanço dos polos ideológicos como fator central para a nova configuração. O fenômeno, segundo essas análises, não é restrito ao estado, mas tem exemplos claros na disputa local.
O cientista político Felipe Ferreira Lima afirma que há um movimento de extinção do que se chamava de voto de opinião ou de centro político ideológico. Segundo ele, políticos moderados que tentam dialogar com ambos os espectros tiveram dificuldades nas últimas eleições. O pesquisador cita como exemplos, em nível nacional, Cristovam Buarque, Carlos Sampaio, Orlando Silva e Roberto Freire, além de nomes locais como Miguel Coelho, Daniel Coelho, Maurício Rands e Renildo Calheiros, que ficaram de fora da disputa para deputado federal.
Para Daniel Coelho, o voto de opinião continua existindo, mas migrou para os extremos. Ele avalia que as pessoas não buscam moderação nem diálogo e optam pelas alas mais radicais. O político também afirma que Raquel é uma raridade entre os governadores eleitos ou reeleitos por não estar vinculada ao lulismo ou ao bolsonarismo. Segundo ele, os que defendem o diálogo e a construção de pontes não tiveram espaço.
Os números da eleição proporcional no Recife reforçam esse cenário. Se Dani Portela, do PT, foi a deputada mais votada, o segundo colocado foi o bolsonarista Gilson Machado Filho, com 46.487 votos na capital. Dos 10 estaduais mais votados no Recife, cinco são bolsonaristas ou lulistas. Na disputa federal, entre os dez mais votados na cidade, cinco são lulistas e cinco bolsonaristas. Jones Manoel foi o campeão, com 81.364 votos, seguido por Pedro Campos, com 72.444, e pelo bolsonarista Eduardo Moura, com 54.534. Na sequência aparecem Gilson Machado e Anderson Ferreira, ambos bolsonaristas, Rosa Amorim, do MST, Thiago Medina, Liana Cirne, Clarissa Tércio e Kari Santos.
O deputado estadual Wanderson Florêncio, do Podemos, admite que só escapou da derrota porque foi apoiado pelo Agro. Ele afirma que o voto de opinião acabou e que, daqui para frente, disputará eleições apenas representando um segmento ou com apoio claro de um candidato a governador. A análise também aponta que parlamentares com muitos prefeitos aliados e emendas conseguem sobreviver, mas estão cada vez mais concentrados no interior. Na Alepe, segundo a avaliação, fala-se mais do interior do que do Grande Recife, onde reside 40% da população pernambucana.