O sociólogo espanhol Manuel Castells, em seu livro Redes de indignação e esperança, aborda o medo como uma emoção essencial para a manutenção do poder, contrastando-a com a esperança e a transformação social. Na disputa eleitoral, a campanha de Lula no segundo turno adotou essa estratégia, utilizando o medo para tentar reverter a desvantagem nas urnas, que se tornou evidente no primeiro turno e foi reforçada pelas primeiras pesquisas que indicavam Flávio Bolsonaro à frente nas intenções de voto.
Essa abordagem se torna visível nos programas de televisão de Lula e na intensa atividade nas redes sociais, em um contexto marcado por desinformação e ataques cada vez mais agressivos. Mensagens alarmantes circulam, sugerindo que, caso Flávio Bolsonaro vença, até mesmo o sistema de pagamentos Pix deixaria de existir. Essa estratégia tem como objetivo construir uma imagem de que, se eleito, o adversário eliminaria programas sociais como o Bolsa Família, retiraria direitos dos aposentados e trabalhadores, além de comprometer a qualidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e as instituições democráticas, levando o país a um governo de perfil “iliberal e fascistizante”.
A narrativa do medo sugere que o Brasil estaria à beira de um apocalipse, caso Lula não vença as eleições. As recentes manifestações, que contaram com a presença significativa de jovens, trouxeram novo fôlego à campanha petista, permitindo que Lula se reposicionasse, saindo de uma abordagem defensiva que caracterizou parte de sua campanha no primeiro turno.
Entretanto, a questão central permanece: o discurso do medo consegue, de fato, dialogar com o desejo de mudança que emergiu das urnas? Esse sentimento é especialmente relevante entre a classe média emergente, que representa uma fração significativa da população brasileira. O jornalista e escritor Pedro Doria, fundador do Canal do Meio, destacou o desempenho eleitoral e a busca de soluções concretas para os problemas cotidianos, como crescimento, emprego, educação e desigualdade.
Os debates que se aproximam podem servir como plataforma para discutir essas questões. Mais do que um embate de acusações e slogans, essa é uma oportunidade para que Lula e Flávio Bolsonaro apresentem suas prioridades, demonstrem preparo e expliquem como suas narrativas podem se transformar em propostas de governo.
O Brasil precisa de um debate menos apocalíptico e mais focado em um projeto de país; menos demonização do oponente e mais compromisso com soluções práticas. A esperança deve caminhar lado a lado com o realismo, assim como a mudança requer responsabilidade.