A recente decisão que concedeu perdão judicial a Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, provocou um intenso debate sobre temas como maternidade, violência doméstica e responsabilidade penal. A juíza Elizabeth Machado Louro, ao justificar sua sentença, mencionou a misoginia e a cultura patriarcal como fatores que influenciaram a sua escolha, gerando controvérsias entre especialistas sobre a perspectiva de gênero aplicada no direito penal.
Na madrugada de quinta-feira (4), a juíza condenou o réu Jairinho a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pela morte de Henry Borel. Em contraponto, Monique recebeu o perdão judicial após a desclassificação da acusação de homicídio doloso para culposo, o que suscitou a discussão acerca dos limites da responsabilização das mulheres em situações de violência.
Elizabeth Machado Louro, em sua análise, argumentou que Monique Medeiros foi alvo de um preconceito de gênero, que resultou em um “massacre” público durante o processo. Essa leitura, embora respaldada por uma parte do feminismo jurídico, também gerou críticas de especialistas na defesa dos direitos das mulheres, que alertam para a necessidade de não minimizar a gravidade da morte de Henry ou eximir Monique de suas responsabilidades.
A advogada feminista Cláudia Luna, especialista em direitos das mulheres, destacou que a sentença evidencia desigualdades presentes na sociedade, na mídia e no sistema judiciário. Porém, ela enfatizou que a discussão não deve ser confundida com uma tentativa de isentar Monique de sua conduta. "Não estou desresponsabilizando ou isentando a Monique em relação à conduta cometida. O que estou debatendo é como a sociedade, o sistema de Justiça e a própria mídia conseguem trazer métricas diferentes quando analisam a mesma situação envolvendo homem e mulher", afirmou.
Luna também apontou que a gravidade da morte de Henry não deve ser desconsiderada no debate sobre a responsabilidade individual. A professora criticou a utilização de elementos como a misoginia e a violência institucional para justificar a extinção da punição. "Embora o linchamento público e as agressões sofridas por Monique nas redes sociais sejam inaceitáveis, não são suficientes para fundamentar o perdão judicial nesse caso", afirmou.
A jurista ressaltou que reconhecer a existência de um relacionamento abusivo ou de violência psicológica não deve afastar a responsabilidade individual pelos atos ou omissões. Para ela, a defesa dos direitos das mulheres não pode ser confundida com a diminuição da autonomia moral e jurídica das mesmas. "O feminismo luta pela autonomia e pela responsabilização da mulher como sujeito de direitos e deveres. Tratá-la como um ser sempre tutelado, incapaz de responder por suas omissões, é, em si, uma postura patriarcal."