A Comissão de Meio Ambiente do Senado (CMA) realizou nesta quinta-feira (22) audiência pública para debater os efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos e as perspectivas para as terras-raras brasileiras. A senadora Leany Lemos (PSB-DF), que presidiu a reunião, afirmou que o governo de Donald Trump trata a política comercial como arma para atingir seus interesses e enxerga o Brasil como um quintal. A audiência foi solicitada por meio do REQ 20/2026 – CMA.
Desde março de 2025, os EUA vêm anunciando tarifas sobre produtos estrangeiros. Atualmente, 47,3% das exportações brasileiras para os EUA estão sujeitas a taxas extras de até 37,5%, que não existiam em 2024. O governo brasileiro estima que essas exportações somem US$ 19,1 bilhões. As taxas mais altas foram anunciadas em julho de 2025, quando algumas tarifas específicas chegaram a 50%.
O Pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Renato Baumann destacou que o objetivo do tarifaço é induzir negociações que resultem em mais investimentos nos EUA. Ele observou que o Brasil tem déficit comercial com os EUA desde 2008 e classificou a estratégia norte-americana como eleitoral, ideológica e comportamental, sem sustentação. Já o representante do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, André Rodolfo de Lima, disse que a decisão de taxar em 25% as exportações brasileiras após julho de 2026 se baseou em uma grande falácia. Segundo os EUA, o Brasil falhou na fiscalização do desmatamento, o que teria favorecido o agronegócio nacional. Lima informou que, entre 2022 e 2026, houve redução de 75,4% no desmatamento na Floresta Amazônica, resultado da adesão de 80 municípios a um programa da União no âmbito do Fundo Amazônia.
A doutora em ciência política Luíza Gimenez Cerioli afirmou que minerais como lítio, cobre, níquel, grafite, cobalto e terras-raras são fundamentais para as transições digital, energética e de defesa e espaço. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial de terras-raras, atrás apenas da China. Cerioli enfatizou que a China dominou grande parte do processamento desses minerais nas últimas décadas, o que levou outros países e empresas a perceberem a dependência como vulnerabilidade estratégica. Ela defendeu foco no mercado interno, com salvaguardas ambientais e redução da desigualdade, e alertou que o processamento exige muita energia e água, podendo gerar conflitos sociais e econômicos.
O professor da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Landgraf defendeu a construção de uma fábrica brasileira de ímãs em vez de vender o material bruto. Ele estimou que são necessários cerca de 10 anos para obter lucro nesse mercado e que existem menos de 10 fábricas de ímãs fora da China. Landgraf também lembrou da Política Nacional de Minerais Críticos, cuja lei foi sancionada no mês passado.