O presidente Lula venceu o senador Flávio Bolsonaro em uma das eleições mais disputadas da história do país, garantindo seu quarto mandato no Planalto. A virada, antes considerada improvável, impõe ao petista a tarefa de pacificar uma nação dividida e governar para toda a população, negociando com uma oposição fortalecida no primeiro turno no Congresso.
Entre os desafios do novo mandato estão duas crises em andamento. A primeira é a institucional, desenhada pelo embate entre o Judiciário e o Legislativo, tendo ao fundo o caso de corrupção do Banco Master. A segunda é a fiscal, agravada pelo pacote de bondades embrulhado pelo presidente nas últimas semanas.
O dia da votação transcorreu sem maiores problemas, exceto por um episódio negativo de grande importância. A demora do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em se manifestar sobre demandas das campanhas, relativas a dificuldades no transporte do eleitorado e às condições climáticas nos locais de votação, solicitadas pelos dois lados, contribuiu para manchar a normalidade usual do pleito. O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou uma decisão no vácuo do TSE, divulgada apenas após o encerramento do horário, para prorrogar a votação por mais duas horas. A confusão motivou desinformação nas seções e nos tribunais regionais, atrasando a apuração.
Em seu discurso de vitória, o presidente reeleito não confrontou o Congresso, afirmando que deputados e senadores fazem parte da decisão dos cidadãos, e defendeu o respeito à Constituição e a democracia. Retomou pontos da campanha e renovou promessas conhecidas dos brasileiros. Já o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, não reconheceu o resultado e disse que vai solicitar a anulação do pleito na Justiça. Em rápida fala, o filho de Jair Bolsonaro omitiu que seu partido também havia pedido a extensão do horário e que perdeu por mais de 4 milhões de votos de diferença.
A alegação de mudança de regras segue o fio de decisões judiciais alinhavadas ao jogo político, que deixam a imagem do STF e da Justiça desgastada perante a opinião pública. A decisão de Zanin criou as condições para a reação de Flávio Bolsonaro e abriu espaço para a tese conspiratória. Ao se referir a um resultado inaceitável, o senador reduz a chance de encarnar a principal figura de oposição ao novo governo do PT, abrindo caminho para outros representantes da direita e do centro político.