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Memórias de um repórter: do sonho JK65 ao impeachment, o Brasil que não virou

Jornalista narra sua trajetória desde a juventude, quando esperava votar em Juscelino, até os anos de ditadura, censura e tortura, e a eleição de...

A promessa de um futuro próspero com Juscelino Kubitschek durou pouco. Ainda adolescente, o repórter aguardava completar 18 anos para votar no slogan JK65 e garantir mais um mandato ao presidente que havia aberto estradas, erguido Brasília e implantado a indústria automobilística. O sonho terminou em 1964, quando os militares tomaram o poder e cassaram políticos, entre eles o próprio JK. O primeiro presidente militar, Castello Branco, chegou a prorrogar o próprio mandato por um ano para respeitar o calendário eleitoral, mas o processo desandou e os quartéis passaram a se ver como capazes de governar.

A confusão política cresceu com o general Costa e Silva, então ministro da Guerra, que anunciou e assumiu a presidência. Como repórter, o autor cobriu a festa de diplomação no salão vermelho do Hotel Nacional, em Brasília. O evento, que hoje não existe mais, servia para mostrar que o nome do dirigente havia sido referendado pelos tribunais eleitorais. Entre convidados que saíam cedo e um presidente que permanecia no local, diplomatas chamaram as meninas que ficavam na porta do hotel para não deixar o salão vazio. Elas comeram, beberam e tiraram fotos ao lado do novo presidente, visivelmente alcoolizado. Naquele momento, o repórter percebeu que aquele governo não daria certo.

Foi no governo Costa e Silva que surgiu o Ato Institucional número 5, que permitiu prisão sem culpa formada, acabou com o habeas corpus, impôs censura à imprensa e iniciou a tortura nas cadeias do regime. A mística do brasileiro cordial acabou. Muitos fugiram para o exterior, onde não tinham apoio das embaixadas brasileiras; em Paris, brasileiros que buscavam contato com os serviços diplomáticos eram presos ou denunciados à polícia local. Um médico exilado há anos na França conseguiu retornar ao Brasil disfarçado de repórter e voltou à sua cidade no Nordeste, onde clinicava discretamente.

Em outubro de 1975, quando chefiava a redação de uma revista semanal em Brasília, o autor recebeu um telefonema por volta das quatro da manhã: Vladimir Herzog havia morrido nas masmorras do Doi-Codi, na rua Tutoia, em São Paulo. Ele acordou o porta-voz do governo na madrugada, Humberto Barreto, que não gostou. Pouco depois, Barreto retornou confirmando a morte e passando instruções do governo para as redações de Brasília e São Paulo sobre como reagir. Tempos depois, uma colega repórter foi interceptada à noite, levada algemada no camburão para a rua Tutoia e ficou presa por bom tempo, sem culpa formada. Ao tentar entregar objetos de higiene pessoal à prisioneira, o autor recebeu desaforos do oficial responsável, que o ameaçou de recolhimento.

Somente após a anistia de 1979 o ambiente começou a ficar mais leve. Depois, com a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, o país encaminhou-se para o retorno às práticas democráticas. O último representante dessa geração é o presidente Lula, metalúrgico surgido com a indústria automobilística e filho do período JK. Já Flavio Bolsonaro é descendente direto dos governos militares, sempre elogiados por seu pai, Jair, que enalteceu a tortura e o coronel Brilhante Ustra, já falecido, e ironizou os brasileiros que queriam se vacinar contra a Covid-19. A eleição seguinte não se limita à escolha de nomes: define o caminho do país. O desafio é a escolha do futuro. Simples assim.

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